Como um paciente com Parkinson sente – pelas lentes de uma escuta que vai além do movimento
“Eu sinto como se meus dedos tivessem desligado. Eles estão aqui… mas não estão.”
Essa foi uma das primeiras frases que ouvi de um paciente com Parkinson, durante a avaliação.
E é sobre isso que quero falar hoje: sobre como eles sentem.
Porque muito antes de qualquer tremor, rigidez ou lentidão…
há algo mais sutil que começa a se apagar: a percepção.
O corpo que ainda está lá, mas já não conversa mais
O paciente com Parkinson, muitas vezes, não consegue colocar em palavras o que sente.
Mas ele mostra com o corpo.
Vejo isso quando observo o cotovelo que já não se abre com naturalidade…
Ou quando ele tenta se levantar, mas os dedos continuam inertes, como se não fossem convocados.
A mão não se organiza para apoiar.
O tronco se lança pra frente, numa tentativa de compensar o que o corpo já não consegue preparar com precisão.
E a sensação é de ausência dentro da presença.
Eles me dizem:
– “Sinto como se o meu corpo estivesse adiantado… e eu, atrasado.”
– “Parece que meu pé não tem mais mapa.”
– “Eu penso, mas ele não obedece.”
Essas metáforas me guiam.
Porque o Parkinson não é só uma doença do movimento.
É uma doença da percepção do corpo em ação.
É uma alteração no diálogo entre intenção e execução.
Entre o toque e o reconhecimento.
Entre o desejo e o gesto.
A perda do gesto espontâneo
Na Reabilitação Neurocognitiva, o que me guia é o que o paciente sente — ou não consegue mais sentir.
Quando um paciente de Parkinson entra no consultório, eu não pergunto “o que você consegue fazer?”, mas sim:
“O que você percebe quando tenta?”
E é aí que a escuta verdadeira começa.
Muitos não sentem mais o pé encostando no chão.
Outros dizem que se sentem duros por dentro, como se o corpo estivesse amarrado de dentro pra fora.
Alguns relatam que o braço “não vai junto” na caminhada.
Não é só rigidez.
É falta de comunicação sensório-motora.
É o corpo tentando falar… e o cérebro, por vezes, não ouvindo.
Como reconstruir isso?
Com paciência.
Com escuta.
Com experiências que fazem sentido.
No Método Perfetti, a primeira coisa que faço é ajudar o paciente a sentir de novo o que o corpo está tentando dizer.
Trago uma espuma, uma textura, uma superfície diferente.
Peço que feche os olhos.
Guio o movimento devagar, com uma pergunta:
“O que você percebeu agora?”
“Qual parte chegou primeiro?”
“Esse lado tem mais peso ou mais leveza?”
Não é mágica.
É ciência aplicada com afeto.
E aos poucos, algo começa a se reconstruir:
O gesto volta a ter intenção.
O toque volta a informar.
A percepção volta a participar.
Porque o Parkinson não apaga tudo.
Ele tenta.
Mas quando conseguimos abrir de novo essas portas sensoriais…
quando o paciente começa a sentir e entender o seu corpo de outra forma…
a esperança volta.
E é por isso que sigo aqui.
Escutando com os olhos.
Perguntando com o toque.
E devolvendo, pouco a pouco, o gesto que faz sentido.
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Se você é familiar, cuidador ou terapeuta e deseja entender como resgatar esse corpo que ainda está presente, mas já não se faz ouvir…
me acompanhe.
💬 No meu Instagram trago conteúdos toda semana sobre como reorganizar o movimento com base na percepção.
📩 E se quiser conversar comigo sobre o seu caso, estou à disposição.
Com carinho,
Nelma de Magalhães